“Famadihana”, a volteadura dos ossos

Estaçom de trem de Antsirabe

Estaçom de trem de Antsirabe

Alberte Pagán. Nom existe umha teleologia da vida. A nossa existência nom tem mais sentido que a de umha pinga de água caindo na montanha. Mas certas gentes insistem em pregarem desígnios cósmicos para essa pobre gota, convertendo-a em mensageira divina à que se lhe adjudica a missom de regar e fomentar a vida na floresta.

A vida nom tem sentido como nom tem sentido a acumulaçom individual de riqueça. Tampouco nom busquemos a imortalidade através das artes, porque o ser humano, que só leva neste planeta uns poucos milheiros de anos, desaparecerá do universo noutros poucos milheiros de anos.

Nesta existência sem finalidade nom tem sentido que tenhamos que aturar injustiças que nos amarguem os poucos anos de vida que nos som dados. Por isso a nossa única opçom existencial, como seres humanos, há de ser a militância política, para que a ausência de teleologia vital nom nos converta em parvos apaleados.

A morte está aí, presente desde o nacimento ao igual que a planta está presente na semente. E essa omnipresença da morte, em vez de fazer-nos conscientes das futilidades capitalistas e da necessidade da solidariedade como premissa social, encarreira à maioria da populaçom cara a umha série de crenças e superstiçons que entendo e nom entendo. Comprendo o medo, mas nom podo aceitar os sistemas religiosos nacidos desse medo, sejam extintos ou estejam ativos, porque igual de absurdo me parece o culto católico que a adoraçom a Ra ou Osíris, tam estúpidos semelham os ritos judeus como os da populaçom romana nos templos de Marte e Apolo. As religions nacem e morrem, e essa é a melhor prova da sua intrínseca falsidade.

Ah, mas a morte… Que fazer ante a desesperança da morte? Todo nace da morte. As religions nacen dos ritos funerários, tam variados como pitorescos. Ante o passamento dos seus maridos as mulheres do povo sena do sul de Malawi praticam a kulowa kufa, umha curaçom através do sexo: as viúvas ham de pechar-se vários dias com um home (a ser possível irmao do falecido) para assi espantar a morte por meio do erotismo. Em Varanasi, nas beiras do Ganga, os parentes dos defuntos queimam os cadáveres antes de guindá-los ao rio sagrado. Durante a cremaçom rompem ossos e crânios para que medulas e cérebros tenham a sua raçom de lume. Os farsis deixam os corpos nas suas “torres do silêncio” (dakhma) para serem devorados polos abutres. Estas aves tamém som essenciais nos “enterros aéreos” (jhator) do Tibet e de Ásia central, nos que os familiares despeçam os cadáveres para que preeiras ou necrófagas os ingiram doadamente.

Mas o ritual funerário mais extraordinário que tivem a oportunidade de presenciar é a famadihana, a “volteadura dos ossos” que entre julho e setembro praticam os povos betsileo e merina do altiplano de Madagáscar. É umha celebraçom familiar à que está invitada toda a vizinhança. Nela exumam-se os cadáveres dos antepassados para comunicar-se com eles, celebrar o reencontro, cambiar os velhos sudários, combinar (segundo o seu estado de putrefacçom) vários cadáveres num só vulto e aproveitar para desfazer-se de algum cadaleito podre.

Bailando cos mortos

Bailando cos mortos

Após umha celebraçom chea de alcool e alegria e bailes cos devanceiros, alçados no ar coas suas mortalhas novas, os mortos som retornados ao panteom familiar e a porta, que sempre mira ao ocaso, pecha-se até a seguinte ocasiom. É umha cerimônia custosa que dura vários dias e que a gente invitada ajuda a sufragar coas suas aportaçons. É um baile cos mortos nos que a tristura da morte é superada pola alegria do reencontro e polas conversas cos parentes partidos.

Tivem ocasiom de assistir a umha famadihana numha recente visita à ilha africana. Chegara umha hora antes à vila termal de Antsirabe, a 170 kms, ou quatro horas, ao sul de Antananarivo. Apenas tivera tempo de colher um pousse-pousse de tracçom humana até o hotel Chez Billy e, ao comprovar que estava completo, deixar-me guiar por um par de moços, que vagueavam diante da entrada, até um quarto na cercá pensom da família Sulby. Fôrom estes moços os que mencionárom umha famadihana que estava tendo lugar a uns poucos quilómetros de ali. Notárom o meu interesse. Eles podiam levar-me e fazer-me invitar pola família. Realmente nom contava com poder presenciar a cerimónia durante a minha viage, assi que tras sopesar brevemente a oferta aceitei pagar os 90.000 ariary (umha quantidade a todas luzes excessiva) que me pediam. O dia (e a celebraçom) rematava, assi que havia que dar-se pressa.

Chegamos num coche velho e escangalhado ao cemitério situado num pequeno outeiro a carom do lago Andraikiba, a uns sete quilómetros cara ao oeste. Centos de persoas falavam e riam e bailavam e bebiam e comiam nos postos dos feirantes. Umha banda de música amenizava a juntança, tam semelhante a umha verbena rural galega. A nom ser porque, ao pouco de chegarmos, a família, após um breve discurso desde o telhado do jazigo, abriu a tumba da que começárom a saír cadáveres, um a um, umha dúzia deles, envolveitos nos seus velhos sudários que pronto trocariam por uns novos. Nom era doado ver os detalhes, tanta gente. Fum-me achegando ao lugar onde as e os parentes se ajeonlhavam sobre os corpos, que acarinhavam, cos que falavam.

Panteom em Antsirabe (foto: Tee La Rosa)

Panteom em Antsirabe (foto: Tee La Rosa)

Juntavam dous ou tres num só pacote, perfeitamente etiquetado cos nomes dos defuntos. Numha esquina estavam os restos de madeira do caixom do último morto, que a partir de agora vestiria mortalha de seda.

Havia seriedade no momento do contacto cos antergos, intuía-se certa tristura. Mas pronto ficou atrás a dor da perda e a alegria do reencontro invadiu a festa e a gente puxo-se a bailar cos cadáveres, ergueitos no ar, com eles e arredor deles, os rostos sorridentes. Um parente achegou-se-me para invitar-me a unir-me à dança. Eu ensinei-lhe a minha perna vendada para declinar o convite. (Umha semana antes sofrera um pequeno acidente de moto em Nosy Boraha. No hospital de Ambodifotrota tiveram que pôr-me nove pontos de sutura no jeonlho esquerdo. A caída deixou-me dolorido e coxeante durante um mes.) O parente, indiferente, co sorriso na boca, perdeu-se bailando entre a multitude. Despois de duas horas a cerimónia chegou ao seu fim. A música cessou, os mortos regressárom ao panteom e os vivos pechárom a porta até a seguinte famadihana.

Abandonamos em massa o lugar, eu satisfeito de ter podido presenciar o momento álgido, o clímax final dumha celebraçom que durara várias jeiras. Por fim algo saía bem numha viage inzada de incidências.

 

 

4 comentarios en ““Famadihana”, a volteadura dos ossos

  1. Son atea por necesidade non podo ser outra cousa. A vida púxomo fácil. E non intento explicalo. Xa ben eu sei a realidade que me viste. Pero gustoume moito lerte. Poslle coñecemento e palabras ao que sei de certo. Grazas.

  2. Bos días Alberte: Ante todo discúlpame no no contestarte en ese espléndido gallego
    ¿o portugués ? que tú utilizas. Lo poco que sé lo he aprendido en castellano, ya sabes… la “religión” lingüística que imponían ciertos políticos. Eso ocurre cuando la lengua se utiliza como
    arma política y no como vía de comunicación. Pero vamos a lo nuestro: hay muchas formas de profesar la fe, y siempre que con ese credo no dañes a terceras personas, es lícita toda creencia, acuérdate que ya Aristóteles suponía que había un Dios, o una causa primera que pone en marcha todos los procesos de la naturaleza. Me alegra saber que, como bien dices, estás a favor de una fe individual, eso está muy bien pero tampoco debemos pensar que todo lo que nos han enseñado es malo. Es verdad que algunos de los que dicen que tienen que cumplir esos cinco pilares o preceptos, luego matan a mansalva en nombre de esa fe. A eso también yo le llamo “sistema organizado para el mal”. Pero hay otras religiones , y digo “otras”- porque no quiero pensar que la que yo profeso es la mejor- que contienen y enseñan valores que te hacen ser mejor persona. Es cierto también que para apuntalar la menguante fe de su rebaño, ciertos pastores utilizan trucos para estimular devociones y dádivas de devotos crédulos, pero las ovejas no son tontas, y entonces le lanzas de vez en cuando una sonrisa para compensar la poca atención que le prestas. En lo que no estoy de acuerdo contigo es cuando dices que te ofende la convicción de la gente religiosa por querer llevar siempre la razón ya que piensan que sois los ateos los que estáis errados. ¿ No te parece que generalizar eso sí que es un error, Alberte ? Pensamiento único se le puede atribuir tanto a un cristiano como a un ateo. Ahí creo que estás equivocado.
    Y termino porque voy a parecer Federico Muelas con sus grandes e interminables discursos.
    Otro saludo agarimoso, Alberte.
    ¿Puedo desearte felices fiestas ?
    Te las deseo. Feliz Nacimiento del Niño.
    Besiños palmeiráns.

  3. Bemquerida Magdalena:
    Umha cousa é a fe como ferramenta individual, tam válida como outra qualquer, e outra cousa é a sua cristalizaçom em sistemas organizados hierarquicamente, ou seja, em religions. A primeira nom me molesta, as segundas me ofendem, porque se bem num princípio se lhes podia pressupor umha funçom social (as religions como normas de convivência), historicamente devírom em instrumentos de control quando nom de opressom. Tamém me ofende particularmente a convicçom das gentes religiosas de que som elas quem levam razom e somos os demais (ateus ou seguidores doutras crenças) os que estamos errados. A fe, os dogmas, nom se podem debater nem argumentar, e portanto impossibilitam o diálogo. Só se podem impor. E lembra que a imensa maioria da guerras de toda a história da humanidade se figérom e se fam em nome de “deus”.
    Saúdos ateus e agarimosos!

  4. Bos días, Alberte:
    Es verdad que cada individuo somos unicamente una gota de agua, pero cuando llenas un vaso, una sola gota puede hacerlo rebosar. Esa última gota es muy importante porque arrastra, lleva consigo a muchas gotas de las que estaban en aquel recipiente, y esas mismas que formaban el contenido de ese continente también las considero importantes, porque sin ellas la última gota no alcanzaría el borde del vaso. Las religiones – en plural – también son necesarias, no para alcanzar el cielo o el infierno, no, eso ya es harina de otro costal pero, incluso ese ritual al que has asistido al lado del lago Andraikiba, tenía su razón de ser para aquellos familiares creyentes. Es algo muy importante la fe para el que tiene el privilegio de poseerla, yo creo que es un hábito imprescindible. Voy a cambiar una palabra de una cita de Rilke : ” No digas que tu existencia carece de fe: piensa si eres lo suficientemente poeta para descubrirla”.
    Querido Alberte, tener fe, es ilusionante. Tenerla en los políticos, es una utopía.
    Me alegro mucho de que te sintieras satisfecho de haber podido contemplar esa celebración con ese credo tan particular.
    Besiños palmeiráns, Alberte. Felices fiestas.

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