{"id":10166,"date":"2018-12-22T06:00:21","date_gmt":"2018-12-22T06:00:21","guid":{"rendered":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=10166"},"modified":"2018-12-17T19:41:26","modified_gmt":"2018-12-17T19:41:26","slug":"10166","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=10166","title":{"rendered":"&#8220;Famadihana&#8221;, a volteadura dos ossos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_10167\" aria-describedby=\"caption-attachment-10167\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Famadihana-01-Antsirabe-esta\u00e7om.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-10167\" alt=\"Esta\u00e7om de trem de Antsirabe\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Famadihana-01-Antsirabe-esta\u00e7om-300x199.jpg\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Famadihana-01-Antsirabe-esta\u00e7om-300x199.jpg 300w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Famadihana-01-Antsirabe-esta\u00e7om.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10167\" class=\"wp-caption-text\">Esta\u00e7om de trem de Antsirabe<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0<\/strong><\/em>Nom existe umha teleologia da vida. A nossa exist\u00eancia nom tem mais sentido que a de umha pinga de \u00e1gua caindo na montanha. Mas certas gentes insistem em pregarem des\u00edgnios c\u00f3smicos para essa pobre gota, convertendo-a em mensageira divina \u00e0 que se lhe adjudica a missom de regar e fomentar a vida na floresta.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida nom tem sentido como nom tem sentido a acumula\u00e7om individual de rique\u00e7a. Tampouco nom busquemos a imortalidade atrav\u00e9s das artes, porque o ser humano, que s\u00f3 leva neste planeta uns poucos milheiros de anos, desaparecer\u00e1 do universo noutros poucos milheiros de anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta exist\u00eancia sem finalidade nom tem sentido que tenhamos que aturar injusti\u00e7as que nos amarguem os poucos anos de vida que nos som dados. Por isso a nossa \u00fanica op\u00e7om existencial, como seres humanos, h\u00e1 de ser a milit\u00e2ncia pol\u00edtica, para que a aus\u00eancia de teleologia vital nom nos converta em parvos apaleados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte est\u00e1 a\u00ed, presente desde o nacimento ao igual que a planta est\u00e1 presente na semente. E essa omnipresen\u00e7a da morte, em vez de fazer-nos conscientes das futilidades capitalistas e da necessidade da solidariedade como premissa social, encarreira \u00e0 maioria da popula\u00e7om cara a umha s\u00e9rie de cren\u00e7as e supersti\u00e7ons que entendo e nom entendo. Comprendo o medo, mas nom podo aceitar os sistemas religiosos nacidos desse medo, sejam extintos ou estejam ativos, porque igual de absurdo me parece o culto cat\u00f3lico que a adora\u00e7om a Ra ou Os\u00edris, tam est\u00fapidos semelham os ritos judeus como os da popula\u00e7om romana nos templos de Marte e Apolo. As religions nacem e morrem, e essa \u00e9 a melhor prova da sua intr\u00ednseca falsidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, mas a morte&#8230; Que fazer ante a desesperan\u00e7a da morte? Todo nace da morte. As religions nacen dos ritos funer\u00e1rios, tam variados como pitorescos. Ante o passamento dos seus maridos as mulheres do povo sena do sul de Malawi praticam a <i>kulowa kufa<\/i>, umha cura\u00e7om atrav\u00e9s do sexo: as vi\u00favas ham de pechar-se v\u00e1rios dias com um home (a ser poss\u00edvel irmao do falecido) para assi espantar a morte por meio do erotismo. Em Varanasi, nas beiras do Ganga, os parentes dos defuntos queimam os cad\u00e1veres antes de guind\u00e1-los ao rio sagrado. Durante a crema\u00e7om rompem ossos e cr\u00e2nios para que medulas e c\u00e9rebros tenham a sua ra\u00e7om de lume. Os farsis deixam os corpos nas suas \u201ctorres do sil\u00eancio\u201d (<i>dakhma<\/i>) para serem devorados polos abutres. Estas aves tam\u00e9m som essenciais nos \u201centerros a\u00e9reos\u201d (<i>jhator<\/i>) do Tibet e de \u00c1sia central, nos que os familiares despe\u00e7am os cad\u00e1veres para que preeiras ou necr\u00f3fagas os ingiram doadamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o ritual funer\u00e1rio mais extraordin\u00e1rio que tivem a oportunidade de presenciar \u00e9 a <i>famadihana<\/i>, a \u201cvolteadura dos ossos\u201d que entre julho e setembro praticam os povos betsileo e merina do altiplano de Madag\u00e1scar. \u00c9 umha celebra\u00e7om familiar \u00e0 que est\u00e1 invitada toda a vizinhan\u00e7a. Nela exumam-se os cad\u00e1veres dos antepassados para comunicar-se com eles, celebrar o reencontro, cambiar os velhos sud\u00e1rios, combinar (segundo o seu estado de putrefac\u00e7om) v\u00e1rios cad\u00e1veres num s\u00f3 vulto e aproveitar para desfazer-se de algum cadaleito podre.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10168\" aria-describedby=\"caption-attachment-10168\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-02.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-10168\" alt=\"Bailando cos mortos\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-02-300x196.jpg\" width=\"300\" height=\"196\" srcset=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-02-300x196.jpg 300w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-02.jpg 592w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10168\" class=\"wp-caption-text\">Bailando cos mortos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s umha celebra\u00e7om chea de alcool e alegria e bailes cos devanceiros, al\u00e7ados no ar coas suas mortalhas novas, os mortos som retornados ao panteom familiar e a porta, que sempre mira ao ocaso, pecha-se at\u00e9 a seguinte ocasiom. \u00c9 umha cerim\u00f4nia custosa que dura v\u00e1rios dias e que a gente invitada ajuda a sufragar coas suas aporta\u00e7ons. \u00c9 um baile cos mortos nos que a tristura da morte \u00e9 superada pola alegria do reencontro e polas conversas cos parentes partidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tivem ocasiom de assistir a umha <i>famadihana<\/i> numha recente visita \u00e0 ilha africana. Chegara umha hora antes \u00e0 vila termal de Antsirabe, a 170 kms, ou quatro horas, ao sul de Antananarivo. Apenas tivera tempo de colher um <i>pousse-pousse<\/i> de trac\u00e7om humana at\u00e9 o hotel Chez Billy e, ao comprovar que estava completo, deixar-me guiar por um par de mo\u00e7os, que vagueavam diante da entrada, at\u00e9 um quarto na cerc\u00e1 pensom da fam\u00edlia Sulby. F\u00f4rom estes mo\u00e7os os que mencion\u00e1rom umha <i>famadihana<\/i> que estava tendo lugar a uns poucos quil\u00f3metros de ali. Not\u00e1rom o meu interesse. Eles podiam levar-me e fazer-me invitar pola fam\u00edlia. Realmente nom contava com poder presenciar a cerim\u00f3nia durante a minha viage, assi que tras sopesar brevemente a oferta aceitei pagar os 90.000 ariary (umha quantidade a todas luzes excessiva) que me pediam. O dia (e a celebra\u00e7om) rematava, assi que havia que dar-se pressa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos num coche velho e escangalhado ao cemit\u00e9rio situado num pequeno outeiro a carom do lago Andraikiba, a uns sete quil\u00f3metros cara ao oeste. Centos de persoas falavam e riam e bailavam e bebiam e comiam nos postos dos feirantes. Umha banda de m\u00fasica amenizava a juntan\u00e7a, tam semelhante a umha verbena rural galega. A nom ser porque, ao pouco de chegarmos, a fam\u00edlia, ap\u00f3s um breve discurso desde o telhado do jazigo, abriu a tumba da que come\u00e7\u00e1rom a sa\u00edr cad\u00e1veres, um a um, umha d\u00fazia deles, envolveitos nos seus velhos sud\u00e1rios que pronto trocariam por uns novos. Nom era doado ver os detalhes, tanta gente. Fum-me achegando ao lugar onde as e os parentes se ajeonlhavam sobre os corpos, que acarinhavam, cos que falavam.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10169\" aria-describedby=\"caption-attachment-10169\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-03-Antsirabe-foto-Tee-La-Rosa.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-10169\" alt=\"Panteom em Antsirabe (foto: Tee La Rosa)\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-03-Antsirabe-foto-Tee-La-Rosa-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-03-Antsirabe-foto-Tee-La-Rosa-300x225.jpg 300w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-03-Antsirabe-foto-Tee-La-Rosa-900x675.jpg 900w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/famadihana-03-Antsirabe-foto-Tee-La-Rosa.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10169\" class=\"wp-caption-text\">Panteom em Antsirabe (foto: Tee La Rosa)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntavam dous ou tres num s\u00f3 pacote, perfeitamente etiquetado cos nomes dos defuntos. Numha esquina estavam os restos de madeira do caixom do \u00faltimo morto, que a partir de agora vestiria mortalha de seda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia seriedade no momento do contacto cos antergos, intu\u00eda-se certa tristura. Mas pronto ficou atr\u00e1s a dor da perda e a alegria do reencontro invadiu a festa e a gente puxo-se a bailar cos cad\u00e1veres, ergueitos no ar, com eles e arredor deles, os rostos sorridentes. Um parente achegou-se-me para invitar-me a unir-me \u00e0 dan\u00e7a. Eu ensinei-lhe a minha perna vendada para declinar o convite. (Umha semana antes sofrera um pequeno acidente de moto em Nosy Boraha. No hospital de Ambodifotrota tiveram que p\u00f4r-me nove pontos de sutura no jeonlho esquerdo. A ca\u00edda deixou-me dolorido e coxeante durante um mes.) O parente, indiferente, co sorriso na boca, perdeu-se bailando entre a multitude. Despois de duas horas a cerim\u00f3nia chegou ao seu fim. A m\u00fasica cessou, os mortos regress\u00e1rom ao panteom e os vivos pech\u00e1rom a porta at\u00e9 a seguinte <i>famadihana<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abandonamos em massa o lugar, eu satisfeito de ter podido presenciar o momento \u00e1lgido, o cl\u00edmax final dumha celebra\u00e7om que durara v\u00e1rias jeiras. Por fim algo sa\u00eda bem numha viage inzada de incid\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0Nom existe umha teleologia da vida. A nossa exist\u00eancia nom tem mais sentido que a de umha pinga de \u00e1gua caindo na montanha. 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