{"id":11043,"date":"2019-07-24T06:00:22","date_gmt":"2019-07-24T06:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=11043"},"modified":"2019-07-21T20:16:41","modified_gmt":"2019-07-21T20:16:41","slug":"o-moucho-cego","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=11043","title":{"rendered":"O moucho cego"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_11044\" aria-describedby=\"caption-attachment-11044\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-1-Sadegh-Hedayat.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-11044\" alt=\"Sadegh Hedayat: Esta foto de Sadegh Hedayat decora o quarto do protagonista da pel\u00edcula de Mazdak Taebi.\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-1-Sadegh-Hedayat-200x300.jpg\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-1-Sadegh-Hedayat-200x300.jpg 200w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-1-Sadegh-Hedayat-683x1024.jpg 683w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-1-Sadegh-Hedayat-900x1347.jpg 900w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-1-Sadegh-Hedayat.jpg 1308w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11044\" class=\"wp-caption-text\">Sadegh Hedayat: Esta foto de Sadegh Hedayat decora o quarto do protagonista da pel\u00edcula de Mazdak Taebi.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0<\/strong><\/em>Um pintor de estojos, fumador de \u00f3pio, recebe a visita dum desconhecido que di ser seu tio. Quando o anfitriom vai buscar vinho ve por um bufardo a cena primig\u00e9nia do relato: umha mulher\/anjo vestida de negro oferece umha flor a um velho yogi que senta baixo um cipreste; um rego os separa; ela quer cruzar mas trope\u00e7a e cai, ante os exagerados risos do velho. Esta \u00e9 a cena que obsessiona ao home e que pinta nos estojos umha e outra vez. Pouco despois a mulher\/anjo aparece na porta do narrador, entra na casa, deita-se no leito. Est\u00e1 morta, vermes na carne. O narrador, ap\u00f3s deitar-se com ela, despe\u00e7a-a e leva os anacos numha maleta at\u00e9 um cemit\u00e9rio coa ajuda dum cocheiro\/trapeiro\/enterrador. O moucho do t\u00edtulo \u00e9 a sombra do narrador na parede, a \u00fanica que pode chegar a entender a sua narra\u00e7om, escrita \u201cpara asegurar-me de que estes sucessos nom som produto da minha imagina\u00e7om\u201d.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda parte o narrador pom-se a redactar a sua autobiografia. Fala da mulher (a \u201crameira\u201d, umha meio irm\u00e1) coa que casou mas que nom lhe permite ter rela\u00e7ons sexuais com ela; do pai que era g\u00eameo do seu tio e nom h\u00e1 certeza de quem \u00e9 o verdadeiro progenitor; da mulher que o coida que \u00e9 a nai da sua esposa&#8230; Os tempos confundem-se, as personages transmigram dumha a outra, a realidade esvai-se nos sonhos do \u00f3pio. Figuras e sexos confundem-se: O narrador aperta e beixa a um cunhado tal e como fazia coa sua esposa e coa mulher\/anjo; a sua neneira \u201cpoderia ter-me usado como parelha l\u00e9sbica, como irm\u00e1 adoptiva\u201d. Finalmente deita-se coa sua esposa, \u00e0 que acaba acoitelando. As palavras que descrevem o feito, e incluso o sabor amargo a pepino, som as mesmas usadas para descrever a mulher\/anjo. Ao final o narrador entra numha segunda vida e ressurge convertido no velho trapeiro, que \u00e9 o yogi, que \u00e9 o enterrador, que \u00e9 o tio. E os vermes instalam-se, por fim, no seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 um dos poss\u00edveis argumentos da novela curta <i>O moucho cego<\/i> (<i>Buf-e kur<\/i>), publicada na \u00cdndia em 1937 polo escritor persa Sadegh Hedayat (1903-1951). <i>O moucho cego<\/i> mostra a vida como pesadelo; a narra\u00e7om \u00e9 umha confissom on\u00edrica e umha viage pola condi\u00e7om humana. Nom h\u00e1 linearidade narrativa, o tempo \u00e9 c\u00edclico, as mesmas cenas repetem-se com variantes. O enterrador, que di conhecer ao protagonista, voltar\u00e1-se topar com el \u00e0 volta do cemit\u00e9rio, e a mesma conversa repete-se, como se fosse a primeira vez que se encontram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-11046\" alt=\"O moucho cego\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-191x300.jpg\" width=\"191\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-191x300.jpg 191w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego.jpg 369w\" sizes=\"(max-width: 191px) 100vw, 191px\" \/><\/a>Franz Kafka, Edgar Allan Poe e Rainer Maria Rilke som influ\u00eancias directas. Mas para tirar todo o significado da escura simbologia da novela temos que ir cara ao Leste: O <i>Livro dos mortos <\/i>tibetano e o <i>Buddhacarita <\/i>(\u201cos actos de Buda\u201d) som as obras que nos permitem desenredar a estrutura e a complexidade dos s\u00edmbolos utilizados. O quarto do narrador \u00e9 umha tumba, o narrador est\u00e1 morto e a novela nom \u00e9 mais que a sua viage polo mundo dos mortos at\u00e9 acadar a resurrei\u00e7om. E a escritura nom \u00e9 senom um intento de conservar a mem\u00f3ria e portanto a ess\u00eancia da persoa, \u00e9 dizer, um jeito de escapar da desapari\u00e7om total, da morte absoluta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto tem adquirido status m\u00edtico em Ir\u00e1m e pronto foi traduzido ao franc\u00eas (<i>La Chouette<\/i><i> aveugle<\/i>) para converter-se num dos favoritos do grupo surrealista. Temos tam\u00e9m tradu\u00e7om inglesa, <i>The Blind Owl<\/i>, e espanhola, <i>La lechuza ciega<\/i>. E tam\u00e9m, apesar de ser umha novela dificilmente adapt\u00e1vel, existem meia d\u00fazia de versons cinematogr\u00e1ficas. A primeira delas qui\u00e7\u00e1 seja <i>The Blind Owl<\/i>, feita polo iraniano Bozorgmehr Rafia em 1973 nos EUA. Em 1975 Kiumars Derambakhsh rodou<i> Buf-e kur<\/i> para a Televisom Nacional do Ir\u00e1m. Nesta pel\u00edcula a voz narradora recolhe o texto da novela (\u201cTodos somos filhos da morte\u201d) entanto as images ilustram a visita do tio, o pintor espreitando polo bufardo a cena da mulher oferecendo um ramo de flores ao velho ao outro lado do rego, a morte e despe\u00e7amento da mulher que se deita no seu leito, a maleta co cad\u00e1ver e a ajuda do cocheiro, e como ao final, de regresso ao seu quarto, se converte el mesmo no trapeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1992 o director teatral Reza Abdoh filmou <i>The Blind Owl<\/i>, a sua \u00fanica longametrage. Nado no Ir\u00e1m, o cineasta alude directamente ao escritor persa desde o t\u00edtulo, mas o argumento da sua pel\u00edcula nada tem que ver co mundo de Hedayat, a nom ser o toque surrealista, a aus\u00eancia de linearidade narrativa, e o esp\u00edrito existencialista das personages sofrentes que nom som conscientes do seu destino, v\u00edtimas dumha sociedade kafkiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mazdak Taebi, tam\u00e9m nado no Ir\u00e1m, realizou no Canad\u00e1 <i>The Blind Owl\/La Chouette aveugle<\/i> em 2018. Taebi ilustra unicamente a primeira parte da novela deixando de lado, como figera Derambakhsh, a vida persoal e dom\u00e9stica do protagonista. O bufardo polo que o narrador espreita \u00e0 mulher\/anjo \u00e9 nesta versom um televisor no que se reproduz a cena primig\u00e9nia: a mo\u00e7a oferece o seu ramo de flores a um velho sentado num parque; nom h\u00e1 rego entre eles, s\u00f3 a vereda. A pel\u00edcula de Taebi \u00e9 moi visual, com apenas di\u00e1logos; o protagonista \u00e9 pintor e fumador de \u00f3pio; e o jogo entre realidade e sonho soluciona-se por meio do televisor, que serve de janela entre um mundo e o outro. Cara ao final o protagonista estende a mao cara \u00e0 pantalha e nesse momento entra em quadro, no televisor, a sua mao estendida: ambos mundos fusionam-se. Umha foto de Hedayat decora a parede do quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas estas pel\u00edculas som adapta\u00e7ons parcialmente erradas, porque <i>Buf-e kur<\/i> \u00e9 umha novela que nom se deixa ilustrar tam doadamente. Fazia falha um cineasta da categoria do chileno Ra\u00fal Ruiz, cum inerente esp\u00edrito transgressor e surrealista, para fazer a melhor e mais fiel versom cinematogr\u00e1fica da novela. Digo fiel no esp\u00edrito, porque a letra difere claramente do original. E qui\u00e7\u00e1 seja essa a \u00fanica maneira de fazer-lhe justi\u00e7a a Hedayat.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-Raoul-Ruiz.jpeg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-11045\" alt=\"O moucho cego - Raoul Ruiz\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-Raoul-Ruiz-300x229.jpeg\" width=\"300\" height=\"229\" srcset=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-Raoul-Ruiz-300x229.jpeg 300w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-Raoul-Ruiz-1024x782.jpeg 1024w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-Raoul-Ruiz-900x687.jpeg 900w, http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/O-moucho-cego-Raoul-Ruiz.jpeg 1472w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ruiz rodou a tenebrista <i>La Chouette<\/i><i> aveugle<\/i> em 1987. O seu protagonista nom \u00e9 pintor, senom projeccionista num cinema \u00e1rabe num bairro de Paris. \u201cAbandonade toda esperan\u00e7a, v\u00f3s que entrades\u201d \u00e9 o ep\u00edgrafe de Dante que enceta a pel\u00edcula; e o plano seguinte mostra a entrada a umha sala de cine: o cinema como al\u00e9m no que habitam os mortos. A porta pola que o narrador acede ao mundo do al\u00e9m \u00e9 a janelinha da cabina de projec\u00e7om. Atrav\u00e9s dela ve na pantalha a cena primig\u00e9nia, desde a que umha bailarina (a mulher\/anjo) cruza olhadas com el. A bailarina acudir\u00e1 ao quarto do protagonista. No leito os vermes comem-lhe a cara. O projeccionista mete os anacos do seu cad\u00e1ver num ba\u00fa que, coa ajuda do tio, acabar\u00e1 num rio, bra\u00e7os e cabe\u00e7a aboiando na \u00e1gua. A narra\u00e7om persoal que nos surprende a metade da novela de Hedayat (narra\u00e7om dentro da narra\u00e7om) converte-se aqui numha pel\u00edcula dentro da pel\u00edcula, de tom orientalista e na que falam um fict\u00edcio espanhol antigo. Descobriremos que a cena da bailarina forma parte desta segunda narrativa, dentro de cuja diegese se retomam certos elementos da confissom do narrador da novela, como umha refer\u00eancia aos dous irmaos g\u00eameos, pai e tio do protagonista. Ao final, o narrador converte-se no seu tio. Todo acontece num s\u00f3 dia, durante o qual passam 50 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>La Chouette<\/i><i> aveugle<\/i> de Ruiz est\u00e1 \u201cinspirada livremente\u201d tanto na novela de Hedayat como em <i>O condenado por desconfiado<\/i>, de Tirso de Molina (obra \u00e0 que se alude tangencialmente dentro da pel\u00edcula orientalista). De feito, um t\u00edtulo alternativo que aparece nos cr\u00e9ditos iniciais \u00e9 <i>Le condamn\u00e9<\/i>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0Um pintor de estojos, fumador de \u00f3pio, recebe a visita dum desconhecido que di ser seu tio. 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