{"id":14563,"date":"2022-05-04T06:00:25","date_gmt":"2022-05-04T06:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=14563"},"modified":"2022-05-01T08:41:40","modified_gmt":"2022-05-01T08:41:40","slug":"voyager-a-inospita-poesia-de-kurt-waldheim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=14563","title":{"rendered":"Voyager. A in\u00f3spita poesia de Kurt Waldheim"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Voyager-cuberta.jpeg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-14564\" alt=\"Voyager cuberta\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Voyager-cuberta-225x300.jpeg\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0<\/strong><\/em>Kurt Waldheim, pol\u00edtico cat\u00f3lico e conservador do Partido Popular Austr\u00edaco, foi secret\u00e1rio-geral da ONU (1972-1981) e presidente de \u00c1ustria (1986-1992). Em 1985, durante a pr\u00e9-campanha eleitoral, publicou <i>No olho do furac\u00e1m<\/i>. Estas mem\u00f3rias aspiravam a dignificar a sua figura pol\u00edtica, mas o efeito foi o contr\u00e1rio: de imediato aflorou o seu passado, que o autor pretendia dissimular, como oficial nazi. Isso nom impediu que ganhasse as elei\u00e7ons. (Por que?, pergunta el incr\u00e9dulo, detendo a cunca de caf\u00e9 a meia altura: Como a gente pode votar por um nazi? A gente votou polo mesmo Hitler, argumenta ela. <!--more-->\u00c0 gente nom lhe molesta o patriarcado nem o capitalismo nem o nazismo nem a guerra: o que lhe molestam som os excessos \u2013assassinato, desfeita ecol\u00f3gica, genoc\u00eddio, crimes de guerra\u2013 do machismo e do liberalismo e do nazismo e da guerra. O que nom quer saber a gente \u00e9 que tanta morte e viol\u00eancia e destru\u00e7om planet\u00e1ria nom som excessos senom a ess\u00eancia mesma de patriarcado, capital e nazismo. A gente denuncia os crimes de guerra mas nega-se a proibir as armas e ilegalizar a guerra. E \u00e9 assi como nas naves espaciais Voyager, que est\u00e1m a explorar o espa\u00e7o interestelar, viaja um disco de ouro com a mensage de paz dum nazi, daquela secret\u00e1rio-geral da ONU, \u00e9 dizer, representante do Planeta Terra, para os seres inteligentes que vivam al\u00e9m de Plutom. Se a imagem nom agrada, o rem\u00e9dio nom est\u00e1 em romper o espelho.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2011 Srikanth Reddy publicou o poem\u00e1rio <i>Voyager<\/i>, composto de tr\u00eas livros e umha sec\u00e7om de ep\u00edlogos. A poesia, mais narrativa que l\u00edrica, surpreende pola falta de continuidade entre um verso e o seguinte, como se cada linha se quigesse independentizar aforisticamente da estrofe que a acolhe, como se autor estivesse a escrever com vozes prestadas. \u201cO mundo \u00e9 o mundo\u201d, come\u00e7a o primeiro livro, e pouco despois: \u201cos mortos nom param na tumba\u201d. Nesta primeira parte, escrita em terceira persoa, fala-se da guerra (\u201cfracasso da forma\u201d) e da morte (que \u201cpode ser um c\u00e1mbio de estilo, mas com certeza nom de subst\u00e1ncia\u201d). \u201cEl conhecia a topografia da injusti\u00e7a\u201d, di o poema, sem especificar a identidade do pronome. Mas pronto aparece o nome \u201cKurt Waldheim\u201d, que nom tem \u201ccapacidade de paz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Voyager-p-64.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-14565\" alt=\"Voyager p 64\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Voyager-p-64-197x300.jpg\" width=\"197\" height=\"300\" \/><\/a>Ler o livro de Reddy \u00e9 realizar um trabalho de investiga\u00e7om. O autor vai deixando pistas que o p\u00fablico leitor h\u00e1 de seguir para interpretar o significado destes estranhos versos e para desvelar a identidade deste ins\u00f3lito personage. O segundo livro, escrito em pequenos fragmentos em prosa, introduz umha primeira persoa, um narrador que est\u00e1 a elaborar um dossier sobre \u201ceste home\u201d que foi \u201cSecret\u00e1rio-Geral das Na\u00e7ons Unidas\u201d e que \u201ccom toda probabilidade conhecia as execu\u00e7ons em massa de grupos de persoas\u201d. Este narrador mesmo desvela o seu m\u00e9todo de trabalho: \u201cComecei a tachar palavras do seu livro sobre a paz mundial\u201d; e pouco despois: \u201cTivem que tachar o seu mundo de novo\u201d; e mais adiante: \u201cTachar cenas dum texto nom deveria significar rejeitar o texto inteiro\u201d. Este processo de tachado, vis\u00edvel em certas partes, converte a frase \u201clevar a cabo programas\u201d em \u201cacarrejar corpos\u201d: o secret\u00e1rio-geral da ONU como \u201c<i>alter ego<\/i>\u201d do oficial nazi. E para que nom fiquem d\u00favidas sobre a identidade de \u201ceste home\u201d: \u201cNom pretendo julgar aqui a persoa do Dr. Waldheim.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro livro \u00e9 o mais extenso. Os versos som curtos e espalham-se pola p\u00e1gina em tercetos quebrados. Waldheim fala agora em primeira persoa: \u201cEmpecei a escrever as minhas mem\u00f3rias\u201d, di. Os tr\u00eas ep\u00edlogos da \u00faltima sec\u00e7om repetem o mesmo texto (fragmento dessas \u201cmem\u00f3rias\u201d nas que se rememora o verao de 1945), completamente tachado ag\u00e1s por umhas poucas palavras aqui e acol\u00e1: em cada umha das versons do ep\u00edlogo as palavras recuperadas, e portanto as frases que com elas constru\u00edmos, som diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta primeira leitura intu\u00edmos a t\u00e9cnica utilizada por Reddy. J\u00e1 desde o ep\u00edgrafe, tirado da <i>Divina com\u00e9dia<\/i> (<i><span style=\"text-decoration: line-through;\">Morti<\/span> li morti <span style=\"text-decoration: line-through;\">e i vivi<\/span> parean vivi<\/i>), o autor introduz palavras e frases tachadas que lemos e nom lemos, que identificamos mas temos que deixar de lado na nossa leitura, o que nos fai conscientes do c\u00e1mbio de significado operado: o verso de Dante \u201cOs mortos estavam mortos e os vivos pareciam vivos\u201d converte-se na voz de Reddy em \u201cos mortos pareciam vivos\u201d. <a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Voyager-part-3-original.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-14566\" alt=\"Voyager part 3 original\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Voyager-part-3-original-219x300.jpg\" width=\"219\" height=\"300\" \/><\/a>No terceiro livro o narrador apresenta-se do seguinte jeito: \u201cEu\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <span style=\"text-decoration: line-through;\">Kurt Waldheim<\/span>\u201d, identificando-se e ocultando-se a um tempo, de igual jeito que nas suas mem\u00f3rias se d\u00e1 a conhecer ao tempo que agacha o seu passado mais comprometido. Umhas p\u00e1ginas antes umha negra sombra paira sobre o poema: \u201c<span style=\"text-decoration: line-through;\">Adolf Hitler<\/span>\u201d; e come\u00e7amos a tirar conclusons.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numha nota final o autor remete a um endere\u00e7o na Rede no que explica e ilustra o procedimento de escritura. Reddy colheu a versom original inglesa das mem\u00f3rias de Waldheim e, num processo de reinterpreta\u00e7om ou leitura entre linhas, elegeu certas palavras com as que construir o poema. Cada umha das tr\u00eas sec\u00e7ons do poem\u00e1rio \u00e9 resultado dumha leitura diferente do mesmo texto (como se exemplifica nos tr\u00eas ep\u00edlogos): nom h\u00e1 progresso senom simultaneidade entre os tr\u00eas livros, as tr\u00eas leituras do mesmo original. Todas as palavras som de Waldheim, a ordem na que aparecem no poema (a que permite construir frases e versos) \u00e9 a do original. <i>Voyager<\/i> \u00e9 um bom exemplo pol\u00edtico de poesia do borrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs mortos nom param na tumba\u201d, repete-se nos tr\u00eas livros. \u201cSe a imagem nom agrada, o rem\u00e9dio nom est\u00e1 em romper o espelho.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0Kurt Waldheim, pol\u00edtico cat\u00f3lico e conservador do Partido Popular Austr\u00edaco, foi secret\u00e1rio-geral da ONU (1972-1981) e presidente de \u00c1ustria (1986-1992). Em 1985, durante a pr\u00e9-campanha eleitoral, publicou No olho do furac\u00e1m. 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