{"id":10391,"date":"2019-02-10T06:00:16","date_gmt":"2019-02-10T06:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=10391"},"modified":"2019-02-10T10:54:04","modified_gmt":"2019-02-10T10:54:04","slug":"narrativas-erosionadas-maurice-blanchot-visto-por-gary-hill","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=10391","title":{"rendered":"Narrativas erosionadas: Maurice Blanchot visto por Gary Hill"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_10393\" aria-describedby=\"caption-attachment-10393\" style=\"width: 208px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/01-Maurice-Blanchot-Thomas-lobscure.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-10393\" alt=\"Thomas l\u2019osbcure, de Maurice Blanchot.\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/01-Maurice-Blanchot-Thomas-lobscure-208x300.jpg\" width=\"208\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/01-Maurice-Blanchot-Thomas-lobscure-208x300.jpg 208w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/01-Maurice-Blanchot-Thomas-lobscure-710x1024.jpg 710w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/01-Maurice-Blanchot-Thomas-lobscure.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10393\" class=\"wp-caption-text\">Thomas l\u2019osbcure, de Maurice Blanchot.<\/figcaption><\/figure>\n<p lang=\"es-ES-u-co-trad\" style=\"text-align: justify;\"><i><strong>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0<\/strong>Thomas o Obscuro<\/i> (Maurice Blanchot, 1941) \u00e9 umha novela ontol\u00f3gica sem argumento e sem personages, porque o Thomas do t\u00edtulo nom existe ao tempo que \u00e9 todos os homes e todas as criaturas, um ser proteico que pode cessar de ser humano para se converter em gato; e Anne \u00e9, pode ser, um desdobramento de Thomas que existe e nom existe, aranha e mulher, ela e a sua mai a um tempo. Anne aparece quando Thomas morre, qui\u00e7\u00e1 el morre para que ela naza. Quando Thomas morre converte-se no cad\u00e1ver de toda a humanidade. Nom som, ao tempo que existo, di Thomas. Penso, e portanto nom som. Thomas \u00e9 um ser sem cabe\u00e7a e sem bra\u00e7os e sem presen\u00e7a, cumha absoluta aus\u00eancia de desejo.<!--more--><\/p>\n<p lang=\"es-ES-u-co-trad\" style=\"text-align: justify;\">Em <i>Thomas o Obscuro<\/i> reencontramo-nos com Kafka (ao que Blanchot dedicou o seu livro <i>De Kafka a Kafka<\/i>) e antecipamos a Beckett e a Sartre. \u00c9 um livro que nos le ao tempo que o lemos, de igual jeito que Thomas avan\u00e7a motivado polo seu rejeitamento ao avance, que se olha para nom ver-se, que morre para viver, que cria a sua morte a partir da sua exist\u00eancia, que est\u00e1 onde nunca pode estar; e de igual jeito que Anne fala quando nom pode falar e provoca contactos humanos a partir da sua imensa soidade. Ambos buscam a imortalidade no baleiro, nesta novela sobre o ser e a nada. Soidade e vazio som as palavras mais repetidas neste descenso aos infernos em busca de Eur\u00eddice. O autor cria o livro, mas \u00e9 o livro o que o converte em autor. O livro le a Thomas, de igual jeito que os objetos aos que se achega o percebem e entendem e lhe doam a ess\u00eancia do ser. A novela remata cum prolongado berro que \u00e9 como o fim dum sonho.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: justify;\">Mirade o que me fijo a linguage. A linguage \u00e9 onde o ser humano se construi e se destrui. As palavras observam a Thomas e come\u00e7am a l\u00ea-lo. Thomas, o leitor, \u00e9 atacado e ferido polas palavras, polo livro que sempre est\u00e1 aberto na mesma p\u00e1gina. Os olhos de Thomas som substitu\u00eddos pola palavra \u201colhos\u201d. De igual jeito quando o escritor escreve a sua novela \u00e9 esta, a novela, a que termina escrevendo (descrevendo, definindo) ao escritor. A linguage \u00e9 a aut\u00eantica protagonista da novela.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10394\" aria-describedby=\"caption-attachment-10394\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/02-Incidence-of-Catastrophe.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-10394\" alt=\"\u201cA viol\u00eancia das letras incrustadas no papel\u201d.\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/02-Incidence-of-Catastrophe-300x207.jpg\" width=\"300\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/02-Incidence-of-Catastrophe-300x207.jpg 300w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/02-Incidence-of-Catastrophe.jpg 563w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10394\" class=\"wp-caption-text\">\u201cA viol\u00eancia das letras incrustadas no papel\u201d.<\/figcaption><\/figure>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: justify;\">Cheguei \u00e0 novela de Blanchot intrigado pola pel\u00edcula <i>Incidence of Catastrophe <\/i>(1988), do videasta estadounidense Gary Hill. <i>Incidence of Catastrophe<\/i> est\u00e1 \u201cinspirada\u201d na primeira parte de <i>Thomas o Obscuro<\/i>, ou mais exactamente na tradu\u00e7om ao ingl\u00eas de <i>Thomas o Obscuro<\/i> \u2014 tradu\u00e7om visual dumha tradu\u00e7om liter\u00e1ria. Hill centra-se nos primeiros cinco cap\u00edtulos da novela, que nos adentram na (in)exist\u00eancia de Thomas. Prescinde portanto da segunda parte (cap\u00edtulos 6-10, dedicados ao ser chamado Anne e \u00e1 sua rela\u00e7om com Thomas), do cap\u00edtulo 11 (mon\u00f3logo de Thomas sobre a morte de Anne) e do derradeiro cap\u00edtulo 12, no que Thomas se desintegra dum jeito similar a como o fazia no cap\u00edtulo 5. Gary Hill desbota, portanto, os aspectos mais novelescos na sua adapta\u00e7om da novela de Blanchot, fazendo mais merit\u00f3ria a proeza.<\/p>\n<p lang=\"es-ES-u-co-trad\" style=\"text-align: justify;\">A linguage tem um grande peso na videografia de Gary Hill: <i>Electronic Linguistic<\/i> (1977) investiga a linguage da tecnologia; em <i>Videograms<\/i> (1981) Hill justapom 19 narrativas abstractas, defeituosas e fragment\u00e1rias a senlhas abstrac\u00e7ons eletr\u00f4nicas; <i>Black\/White\/Text<\/i> (1980) estuda a dial\u00e9tica entre images e sons e a materialidade dos sons; e em <i>Processual Video<\/i> (1980) centra-se no processual, esse espa\u00e7o existente entre o perceptivo e o conceitual. <i>Goats and Sheep<\/i> (2001) duplica o texto, convertendo-o em eco, ao tempo que o ilustra coa linguage dos signos; e em <i>Primarily Speaking<\/i> (1983) e <i>Around &amp; About <\/i>(1980) rompe as palavras em s\u00edlabas, cada s\u00edlaba vinculada a um plano (a voz for\u00e7a os cortes e em conseq\u00fc\u00eancia a montage). A vocaliza\u00e7om \u00e9 para Hill umha forma de materializar a voz, de converter a linguage em mat\u00e9ria\/material sonoro. Nunca o som (a palavra) se materializou dum jeito tam gr\u00e1fico como em <i>Mediations (towards a remake of Soundings)<\/i> (1986), na que a membrana dum alta-voz se vai cobrindo de area at\u00e9 literalmente \u201centerrar\u201d a voz que del surge.<\/p>\n<p lang=\"es-ES-u-co-trad\" style=\"text-align: justify;\">Com este historial nom resulta estranho que Hill se interessasse pola novela de Blanchot. Mas, curiosamente, na sua adapta\u00e7om prescinde quase por completo da palavra: algumha verba solta na seq\u00fc\u00eancia da cea (essas palavras simples que Thomas escoita no meio da conversa no cap\u00edtulo 3: erosiom da linguage), ou as partes do corpo que um derrotado Hill\/Thomas, atacado pola c\u00e1mara, pronuncia ao rev\u00e9s (\u201canrep a\u201d) na cena final. (Hill tam\u00e9m tem obras puramente visuais, mudas, nas que explora a materialidade e a textura das cores electr\u00f3nicas, como <i>Windows <\/i>[1978] e <i>Rock City Road<\/i> [1975].)<\/p>\n<figure id=\"attachment_10395\" aria-describedby=\"caption-attachment-10395\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/03-Incidence-of-Catastrophe-2.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-10395\" alt=\"Cena final de Incidence of Catastrophe.\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/03-Incidence-of-Catastrophe-2-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/03-Incidence-of-Catastrophe-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/03-Incidence-of-Catastrophe-2-900x675.jpg 900w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/03-Incidence-of-Catastrophe-2.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10395\" class=\"wp-caption-text\">Cena final de Incidence of Catastrophe.<\/figcaption><\/figure>\n<p lang=\"es-ES-u-co-trad\" style=\"text-align: justify;\">Gary Hill presta-se a encarnar o nom nomeado Thomas de <i>Incidence of Catastrophe<\/i>. A pel\u00edcula come\u00e7a, como a novela, no mar: a \u00e1gua erosiona a area como met\u00e1fora da desintegra\u00e7om do ser. O protagonista le um livro, ao tempo que \u00e9 lido por el. A leitura erosiona ao leitor, o mar fusiona-se coa p\u00e1gina por meio de superposi\u00e7ons. As palavras impressas som rios e som bosque, no que o leitor se perde na noite. Finalmente a c\u00e1mara topa-o deitado no chao, na parte exterior dumha janela. A c\u00e1mara, sem cortes, retrocede ao interior da casa e move-se cara \u00e0 esquerda at\u00e9 enquadrar \u00e0 personage deitada na cama despois de passar por riba do livro cujas p\u00e1ginas move o vento. Noutra cena o leitor senta ante o livro, mas a cabe\u00e7a cai co sono umha e outra vez: a leitura como viv\u00eancia, a vida como sonho suscept\u00edvel de interpreta\u00e7om.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" style=\"text-align: justify;\">As palavras ocupam a pantalha em planos de detalhe que desvelam a rugosidade da p\u00e1gina e a viol\u00eancia das letras incrustadas no papel, viol\u00eancia enfatizada polos exagerados sons do passo de folhas e dos dedos ro\u00e7ando a p\u00e1gina. Quando a luz se situa tras a p\u00e1gina o texto do anverso, ileg\u00edvel, funde-se co anverso. O livro le ao leitor e mesmo o ataca, fisicamente: Hill\/Thomas corta-se co bordo do papel. Despois, num falso bucle, o protagonista corre cara \u00e0 c\u00e1mara, aparecendo e desaparecendo na obscuridade, o dedo sangrante no ar. Umha superposi\u00e7om identifica a boca do home coa cavidade semicircular dumha m\u00e1quina de escrever: a palavra identifica-se co texto, o texto co ser humano, \u00fanico animal articulado, e ao mesmo tempo co mundo, um mundo vivo e agressivo que ataca e perturba a Hill\/Thomas provocando a cat\u00e1strofe, o seu derrubamento f\u00edsico e mental. E na cena final umha c\u00e1mara subjetiva, da que sai um garabulho a modo de ap\u00eandice, ataca o corpo derrubado do leitor, encolheito em posi\u00e7om fetal entre os seus excrementos.<\/p>\n<p lang=\"pt-BR\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0Thomas o Obscuro (Maurice Blanchot, 1941) \u00e9 umha novela ontol\u00f3gica sem argumento e sem personages, porque o Thomas do t\u00edtulo nom existe ao tempo que \u00e9 todos os homes e todas as criaturas, um ser proteico que pode cessar de ser humano para se converter em gato; e Anne \u00e9, pode ser, um desdobramento &hellip; <a href=\"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=10391\" class=\"more-link\">Seguir lendo <span class=\"screen-reader-text\">Narrativas erosionadas: Maurice Blanchot visto por Gary Hill<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[20,6,7,9],"tags":[],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10391"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10391"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10391\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10396,"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10391\/revisions\/10396"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}