{"id":9132,"date":"2018-04-25T06:00:02","date_gmt":"2018-04-25T06:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=9132"},"modified":"2018-04-19T07:04:05","modified_gmt":"2018-04-19T07:04:05","slug":"a-aldea-na-selva-de-leonard-woolf-e-a-novela-colonial-britanica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/?p=9132","title":{"rendered":"A aldea na selva, de Leonard Woolf e a novela colonial brit\u00e2nica"},"content":{"rendered":"<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\"><em><strong><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/A-aldea-na-selva.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-9133\" alt=\"A aldea na selva\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/A-aldea-na-selva-199x300.jpg\" width=\"199\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/A-aldea-na-selva-199x300.jpg 199w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/A-aldea-na-selva-681x1024.jpg 681w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/A-aldea-na-selva.jpg 685w\" sizes=\"(max-width: 199px) 100vw, 199px\" \/><\/a>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0<\/strong><\/em>Qui\u00e7\u00e1 a obra mais conhecida da literatura colonial brit\u00e2nica seja a <i>Passage para a \u00cdndia<\/i> (1924) de E. M. Foster, que tira o seu t\u00edtulo do poema hom\u00f4nimo de Walt Whitman. Nela, umha mo\u00e7a inglesa de visita na \u00cdndia acusa de assalto sexual a um m\u00e9dico \u00edndio que a acompanha numha excursom. Esta falsa den\u00fancia desencadea os preju\u00edzos e rompe as fr\u00e1geis rela\u00e7ons raciais entre a cidadania \u00edndia e os colonizadores brit\u00e2nicos. Por\u00e9m, a cr\u00edtica pol\u00edtica est\u00e1 ausente e a novela nom \u00e9 quem de condenar o imperialismo do Reino Unido.\u00a0No ano da publica\u00e7om de <i>Passage para a \u00cdndia<\/i> George Orwell servia como pol\u00edcia na Birm\u00e2nia, daquela integrada administrativamente na \u00cdndia ocupada.<\/p>\n<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\"><!--more-->Desta experi\u00eancia naceu a sua primeira novela, <i>Dias na Birm\u00e2nia<\/i> (1934), cujo argumento tem moitas semelhan\u00e7as co da novela de Foster. <i>Dias na Birm\u00e2nia<\/i> \u00e9 umha obra existencial e pessimista, e \u00e9 este pessimismo o que lhe permite adentrar-se na area pol\u00edtica para condenar o imperialismo brit\u00e2nico, essa \u201cmentira de que estamos aqui para educar os nossos malpocados irmaos negros em vez de para roub\u00e1-los\u201d. O mercador Flory, o protagonista, topa-se numha posi\u00e7om inc\u00f4moda: os seus compatriotas desprezam-no polas suas amizades birmanesas e polo seu igualitarismo, entanto a popula\u00e7om nativa nom pode deixar de sentir ante el o desequil\u00edbrio de poder. Nesta ruela sem sa\u00edda Flory opta por quitar-se a vida.<\/p>\n<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\">Duas d\u00e9cadas despois Anthony Burgess publicou a sua primeira obra de fic\u00e7om, a trilogia malaia <i>O longo dia m\u00edngua<\/i>, que toma o t\u00edtulo dum verso do poema <i>Ulisses<\/i> de Lord Tennyson. Publicadas entre 1956 e 1959, as tres novelas (<i>A hora da cerveja<\/i>, <i>O infiltrado<\/i> e <i>Leitos orientais<\/i>) repetem o consabido tema das tensons raciais, mas desta vez a insurg\u00eancia independentista e comunista entra de cheo na fic\u00e7om: estamos nos estertores do imp\u00e9rio. A trilogia, dedicada em malaio \u201ca todas as minhas amizades malaias\u201d, conta de novo como protagonista cum expatriado brit\u00e2nico, um paternalista Victor Crabbe, que neste caso exerce de professor de hist\u00f3ria e, como bom colono, ve-se no dever de loitar contra o \u201cterrorismo\u201d da guerrilha. <i>Leitos orientais <\/i>remata coa celebra\u00e7om da independ\u00eancia do pa\u00eds.<\/p>\n<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\">Mas moitos anos antes de todo isto Leonard Woolf (marido de Virginia, a quem est\u00e1 dedicada a novela) publicara <i>Umha aldea na selva<\/i> (1913), situada no sul de Ceil\u00e1m (actual Sri Lanka) onde Woolf trabalhara durante uns anos como magistrado. Como no caso de Orwell, a experi\u00eancia colonial como parte da engrenage opressora apontoou as suas convic\u00e7ons anti-imperialistas e socialistas. <i>Umha aldea na selva<\/i> afasta-se das novelas comentadas arriba num aspecto fundamental: est\u00e1 narrada desde o ponto de vista da popula\u00e7om nativa, e a \u00fanica personage europea, moi secund\u00e1ria, \u00e9 o juiz brit\u00e2nico que, apesar de comprender e simpatizar cum dos protagonistas, acaba condenando-o.<\/p>\n<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\">Esta primeira novela de Woolf tampouco se dedica a indagar na burguesia nativa, senom que opta por se achegar \u00e0s zonas rurais mais deprimidas para denunciar as injusti\u00e7as padecidas polas classes desfavorecidas e de passo fazer umha cr\u00edtica das rela\u00e7ons de poder. A fam\u00edlia de Silindu \u00e9 desprezada por viverem como <i>veddahs<\/i> (a etnia nativa de Sri Lanka). <a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Beddegama.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-9135\" alt=\"Beddegama\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Beddegama-216x300.jpg\" width=\"216\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Beddegama-216x300.jpg 216w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Beddegama.jpg 625w\" sizes=\"(max-width: 216px) 100vw, 216px\" \/><\/a>A supersti\u00e7om, os matrim\u00f4nios nom tolerados, os matrim\u00f4nios for\u00e7ados, as d\u00e9vedas impag\u00e1veis e as falsas acusa\u00e7ons de roubo levam ao velho Silindu a cometer dous assassinatos, o do ped\u00e1neo (correa de transmissom do poder colonial) e o do prestamista, s\u00edmbolo do capital opressor. Como o velho e manso b\u00fafalo, Silindu revira-se com for\u00e7a quando ferido e acurralado. A selva que rodea a aldea acaba impondo nom s\u00f3 a sua lei na sociedade humana desta pequena aldea de dez choupanas, mas tam\u00e9m reclama o que \u00e9 seu, o pr\u00f3prio territ\u00f3rio: passado o tempo s\u00f3 ficar\u00e1 umha soa cabana habitada, a de Punchi Menika, filha de Silindu, despois de pai e marido morrerem na cadea. Ao final da novela um javaril, que Punchi Menika interpreta como o dianho da selva, provocar\u00e1 a sua morte, e com ela a morte da aldea.<\/p>\n<p>Pablo Neruda afirma, nas suas mem\u00f3rias, que a novela de Woolf \u00e9 \u201cuno de los mejores libros que se haya escrito jama\u0301s sobre el Oriente, obra maestra de la verdadera vida y de la literatura real.\u201d Por\u00e9m apenas \u00e9 conhecida em Ocidente, a figura de Woolf apagada pola sombra gigante da sua mulher. Mas a verdadeira razom deste esquecimento h\u00e1 que busc\u00e1-la no feito de que o protagonista da sua novela nom \u00e9 branco: o narrador mostra em todo momento o ponto de vista ind\u00edgena. E \u00e9 este mesmo feito o que acabou introduzindo a novela no c\u00e1non liter\u00e1rio srilank\u00eas, como se Woolf fosse um mais dos seus escritores. Baste isto para evidenciar a falta de orientalismo e paternalismo na sua novela, pecados dos que dificilmente escapam narra\u00e7ons como a de Foster.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9134\" aria-describedby=\"caption-attachment-9134\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Arthur-C-Clarke-em-Beddegama.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-9134\" alt=\"Arhtur C. Clarke na pel\u00edcula Beddegama\" src=\"http:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Arthur-C-Clarke-em-Beddegama-300x227.jpg\" width=\"300\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Arthur-C-Clarke-em-Beddegama-300x227.jpg 300w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Arthur-C-Clarke-em-Beddegama-1024x777.jpg 1024w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Arthur-C-Clarke-em-Beddegama-900x683.jpg 900w, https:\/\/cafebarbantia.barbantia.es\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Arthur-C-Clarke-em-Beddegama.jpg 1245w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9134\" class=\"wp-caption-text\">Arhtur C. Clarke na pel\u00edcula Beddegama<\/figcaption><\/figure>\n<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\">A adapta\u00e7om cinematogr\u00e1fica de Lester James Peries, <i>Beddegama<\/i> (1980), \u00e9 umha mostra mais do apre\u00e7o do que goza a novela em Sri Lanka. <i>Beddegama<\/i> nom se distingue doutras pel\u00edculas de Peries, como <i>Gamperaliya<\/i> (1963), baseada num cl\u00e1ssico liter\u00e1rio srilank\u00eas: em ambas temos a mesma olhada local e directa. Na sua adapta\u00e7om Peries prescinde dos dous \u00faltimos cap\u00edtulos d\u2019<i>A<\/i> <i>aldea na selva<\/i>, nos que Woolf detalha o longo caminho de Silindu at\u00e9 a cadea. Prefere rematar cumha breve voz narrativa que nos conta o destino dos dous homes presos, e coa espera de Punchi Menika a que um demo da selva, surgido dum leopardo, venha busc\u00e1-la.<\/p>\n<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\">A primeira image de <i>Beddegama<\/i> \u00e9 a do esqueleto dum b\u00fafalo, met\u00e1fora dumha seca que nom deixa prosperar a aldea, mas tam\u00e9m da lei da selva, que reclama o que \u00e9 seu. A novela de Woolf come\u00e7a cumha detalhada descri\u00e7om da selva e as suas leis, que acabar\u00e1m sendo as da sociedade humana. Peries sintetiza esse primeiro cap\u00edtulo com images documentais dum leopardo apressando um porco bravo. \u00c9 o mesmo leopardo que, transformado em demo, acabar\u00e1 coa \u00faltima habitante da aldea ao final da pel\u00edcula.<\/p>\n<p lang=\"es-ES\" align=\"justify\">Tam\u00e9m troca Peries o devir temporal lineal da novela ao converter toda a narra\u00e7om numha reminisc\u00eancia. A pel\u00edcula apresenta-nos a um representante brit\u00e2nico (Leonard Woolf, interpretado por outro escritor ingl\u00eas exilado em Sri Lanka, Arthur C. Clarke) que visita Beddegama, a aldea na selva, e rememora todo o acontecido anos atr\u00e1s. Um octogen\u00e1rio Leonard Woolf efectivamente visitara os cen\u00e1rios da sua novela em 1960. Mas o recurso temporal de Peries nom deixa de ter um paralelismo na pr\u00f3pria escrita da novela, redactada em Inglaterra a partir das mem\u00f3rias da sua est\u00e2ncia em Ceil\u00e1m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberte Pag\u00e1n.\u00a0Qui\u00e7\u00e1 a obra mais conhecida da literatura colonial brit\u00e2nica seja a Passage para a \u00cdndia (1924) de E. M. Foster, que tira o seu t\u00edtulo do poema hom\u00f4nimo de Walt Whitman. Nela, umha mo\u00e7a inglesa de visita na \u00cdndia acusa de assalto sexual a um m\u00e9dico \u00edndio que a acompanha numha excursom. 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